septiembre-octubre 2017, AÑO XI, Nº 63

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Diário de Viagem
Um tradutor no Baixio dos Francos.
Campeche, inverno de 2015 (flexibequi)

 

Voltar quase sempre é partir

para outro lugar”

Paulinho da Viola

 

Pouco a pouco vou me dando conta da transitoriedade da minha passagem por Frankfurt. Sim, desde sempre era uma passagem, portanto um parêntesis na vida cotidiana e a situação singular de seis meses dedicados a um livro, em uma cidade onde eu não conhecia ninguém. O transitório é sempre um problema quando construímos laços, quando essa passagem acontece carregada de afeto: afeto pela cidade, pela língua, por novos amigos, novas relações. Mas sem estar afetado pelo contato com a cidade é impossível a experiência. A experiência da viagem, fundadora da narrativa, ist in Kursen gefallen; toda a programação, a diminuição dos riscos e dos imprevistos ao mínimo, os deslocamentos das massas, a terrível incomodação que é atravessar os aeroportos, transformou a viagem em uma mercadoria que percorre sua linha de montagem para sair, lá na ponta, provavelmente de volta ao mesmo aeroporto, “feliz” por ter conhecido o mundo, por ter consumido sua passagem, seu quarto de hotel, seu ônibus ou trem, sua paisagem codificada, empacotada, prometida e entregue conforme os contratos. Mas sempre é possível estabelecer um contato, sempre é possível deixar-se levar pelo tempo (die Zeit, immer die Zeit), por ruas desconhecidas, jardins, por um dia-a-dia que te punge porque é estranho e ao mesmo tempo íntimo, caseiro. O que eu não sabia então é que o sentimento da transitoriedade, da passagem, iria se prolongar em uma relação mais duradoura e que o afeto iria manter Frankfurt na minha vida.

*

     Antes de deixar a Alemanha, tive um sonho. Sonhei com um lugar onde nunca estive, a menor província da Alemanha, Saarland, a Sudoeste de Frankfurt. Lá me apareceu uma bruxa que me falou um poema:

Im Verborgenen geborgen

im Geheimnis ein sicherer Ort

im Ungleichen der Zeit die Stunden zählend

im Fortwährend zunehmend die Entfernung

nicht kleiner werdend 

größer

 

       Não era algo muito fácil de traduzir. Die Entfernung é a distância, o afastamento. Os outros substantivos: Verborgene, oculto, Geheimnis, segredo, ein sicherer Ort, um lugar seguro, Ungleichen der Zeit, a desigualdade do tempo, die Stunden zählend, contando as horas. Dessas coisas difíceis de traduzir. Os dois últimos versos dizem: A distância não se tornando menor / maior. O poema era claro e ao mesmo tempo obscuro. A mulher, die Hexe, a bruxa, olhava pra mim, me encarava e me pedia pra dizer aquilo que já se sabia. Acordei suando no apartamento da Adickesallee 49, a poucos dias de deixar o país. Da bruxa, ficou a imagem em preto e branco de uma jovem com um sorriso irônico, fazendo pose, cheia de vida.

                                                                  *

 

  Por que corro atrás dos indícios nas cartas que Georg Simmel escreveu durante o ano de 1907, ano do nascimento de Angi, de sua filha Angela com Gertrud Kantorowicz? O que esse episódio da vida de um professor da Universidade de Berlim provoca em mim? Por que procuro em Dankbarkeit ou Treue ou Geheimnis alguma indicação da presença da filha?

                                                                 *

 

Verão de 2017

  Estamos na estrada, na Autobahn, que nos leva de Hanweiler, bem na fronteira com a França (do outro lado, Sarreguemines), de volta a Schwarzenholz. Já está quase escuro. O caminho nos leva a um trecho com obras – há obras por todo lado na Alemanha – e a um desvio que nos coloca na pista contrária, de volta ao nosso ponto de origem. Rimos e tomamos novamente o caminho em direção a Schwarzenholz, prestando a atenção para fazer o desvio e ir na direção certa. Entramos em uma pequena vila, escura, sem ninguém na rua. Os caminhos dão em nada. Voltamos, retomamos o desvio e logo estamos outra vez de volta ao ponto inicial. Começamos a ficar irritados. Uma terceira tentativa e tudo ocorre de maneira igual. Buscamos então outro caminho, outra Autobahn. Nos livramos do labirinto e passamos ao largo de Völklingen. No escuro, da Autobahn, vejo desenhada no horizonte a sombra da siderúrgica que me assombra com seus mortos.

*

Um dos grandes símbolos do capitalismo de sucesso alemão é a Volkswagen. Lembro que na minha família, comprar um carro significou durante muitos anos comprar um Volkswagen. Tinha um sentido de segurança, de confiança. O escândalo do diesel descoberto nos Estados Unidos põe a nu o mito da segurança e da confiança capitalista. Ao mesmo tempo, no Brasil e na Alemanha, aparece a história sinistra das relações entre a Volkswagen e a ditadura. Como era mesmo a frase de Brecht sobre os bancos?

                                                                           *

 

De volta (inverno na Ilha)

  Volto a um país triste, desolado, saqueado pelas máfias que tratam de destruir o pouco que se conseguiu fazer nesses 12 últimos anos de vacas gordas. O saque é constitutivo de nossa história. Me vem à memória Retrato do Brasil, de Paulo Prado, burguês paulista do café, amigo dos modernistas, cujo subtítulo é Ensaio sobre a tristeza brasileira. Se a Alemanha esconde nas sombras da Autobahn o esqueleto de aço e seus fantasmas, o Brasil esconde (mal) “o desprezo da dignidade humana, a incultura, o vício protegido pela lei, o desleixo nos costumes, o desperdício, a imprevidência, a subserviência ao chicote, o beija-mão ao poderoso”. Voltar é quase sempre partir para outro lugar.

 

(Actualización septiembre – octubre 2017/ BazarAmericano)

 

 

 

 




9 de julio 5769 - Mar del Plata - Buenos Aires
ISSN 2314-1646