julio-agosto 2017, AÑO XI, Nº 62

logo.png

Editora

Ana Porrúa

Consejo editor

Osvaldo Aguirre  /  Irina Garbatzky
Matías Moscardi  /  Carlos Ríos
Alfonso Mallo

Columnistas

Paulo Ricci
/  Ezequiel Alemian

Nora Avaro
/  Juan José Becerra

Gustavo Bombini
/  Miguel Dalmaroni

Yanko González
/  Alfonso Mallo

Marcelo Díaz
/  Jorge Wolff

Aníbal Cristobo
/  Carlos Ríos

Rafael Arce
/  Ana Porrúa

Antonio Carlos Santos
/  Mario Ortiz

José Miccio
/  Adriana Astutti

Esteban López Brusa
/  Osvaldo Aguirre

Federico Leguizamón
/  David Wapner

Julio Schvartzman

Colaboran en este número

Adriana Bocchino
/  Irina Garbatzky

Matías Moscardi
/  Mario Ortiz

Carlos Ríos
/  Marcelo Díaz

Ulises Cremonte
/  Juan L. Delaygue

Julieta Yelin
/  Alberto Giordano

Luciana Sastre
/  Sebastián Bianchi

Curador de Galerías

Daniel García

Diseño

Antonio Carlos Santos

Diário de Viagem
Um tradutor no baixio dos francos.
Alemanha, inverno de 2016

O barco está em uma diagonal em relação ao rio, seus ocupantes, remadores, têm todos a cabeça branca e esperam. Os remos levantados, ele apenas se move com o balanço do rio. Uma voz de comando faz com que dois dos oito homens ponham o remo a trabalhar para colocar o barco paralelo às margens. Os dois remos saem da água ao mesmo tempo, percorrem a distância até o ponto de voltar à água juntos, com as pás paralelas ao espelho d’água, e retornam à posição de corte para submergir e impulsionar então a aparentemente frágil embarcação. Quando chega à posição desejada, ouve-se novamente a voz de comando e os oitos remos se levantam, viram, voam a poucos centímetros da superfície, tornam a girar para entrar na água e impulsionar o barco para frente. Vistos do alto, da ponte, os remos desenham uma figura centopéica com seu movimento ritmado conduzidos pelos corpos que ocupam todo o espaço do estreito barco e também se movem, as pernas, o tronco e os braços transmitindo a força a eles que, por sua vez, cortam a água para provocar o movimento. Colado ao rio, o barco ganha velocidade, quase invisível, totalmente tomado pelo movimento dos remos que parecem as pernas de um estranho animal e pelos corpos que a ele se misturam. Por um momento, não sei mais distinguir os homens do barco, estão todos juntos: para frente, os joelhos dobrados, para trás, as pernas esticadas, e o movimento dos remos, os pingos da água que denunciam a penetração das pás no rio. Da ponte olho o rio, o barco e os homens de cabeça branca. Faz frio.

*

Diante de mim, o enorme monstro de ferro, a cara do século XIX. Chama-se Völklinger Hütte, e fica a uns 10 quilômetros de Saarbrücken, capital da província de Saarland, não longe da fronteira com a França, tendo Luxemburgo ao Norte, e a Alsácia Lorena ao Sul. Estávamos em Schwarzenholz, cidade onde Anke nasceu, quando ela me disse que me levaria onde o pai havia trabalhado durante 40 anos, uma siderúrgica que desde 1986 estava fora de operação e em 1994 havia se transformado em herança cultural da Unesco, um museu. Não dei muita bola, talvez não tenha entendido direito, apenas me deixei levar. Diante de mim, então, estava aquela gigantesca máquina de trabalho, de escravidão, feia, sombria, parada, ocupando toda a paisagem da pequena cidade, estendendo seus braços de ferro em todas as direções. Em 1873, um engenheiro de Colônia chamado Julius Buch fundou a Völklingen Eisenhütte, Actien-Gesellschaft für Eisenindustrie (Siderúrgica Völklinger, SA), que, no entanto, não resistiu à concorrência e fechou em 1879. Em 1881, ela foi comprada pela empresa Irmãos Röchling e sob a direção de Karl Röchling iria se tornar a mais importante siderúrgica da Alemanha. Sua dimensão grandiosa se misturava ao que eu ia ouvindo de Anke: o pai havia entrado na fábrica com 14 anos, como aprendiz, em 1941. Kunibert era apenas um jovem que queria ver o mar e por isso se alistou na Marinha em 1944. Nesse mesmo ano, Erika levava comida escondida para os trabalhadores forçados trazidos dos territórios ocupados. Eles eram cerca de 14 mil: russos, ucranianos, sérvios, italianos, franceses. Mais tarde, vi na página do Museu Völklinger Hütte o nome dos 250 trabalhadores que lá morreram: Sefedim Suleiman, nascido em 1906, Tatjana Schewtschenko, 1902, Peter Beleschko, 1926, Anna Fedyk, 1926, Andrey Ladyka, 1923, Orlando Pallazini, 1920, Antonio Basso, 1923, todos mortos em 1944. A longa lista me traz os nomes, as datas, a cidade de nascimento e algumas surpresas: Wladimir Suchowski, nasceu em julho de 1944, lá mesmo na siderúrgica, e morreu um mês depois, assim como Wera Halkina, que nasceu em maio e morreu em agosto, ou Alexander Babkow, nascido em janeiro e morto em agosto, ou ainda Raissa Morgatschowa, que viveu apenas um mês, de julho a agosto de 1944. Os nomes me assombram. O navio em que Kunibert havia embarcado foi afundado no Mar do Norte e ele levado preso para a União Soviética, onde ficou até o ano seguinte quando a guerra acabou. Assim, como muitos outros, o jovem nascido em Schwarzenholz voltou pra casa, depois de chegar de navio no Norte da Alemanha, a pé. O que ele viu, o que viveu, não foi contado. Duas vezes, a região de fronteira foi evacuada, no começo e quase no fim da guerra; a capital, Saarbrücken, foi 30 vezes bombardeada e estava destruída e vazia quando as tropas americanas entraram no território alemão em 1945. Uma tia contava, me conta Anke, que o céu ficava vermelho. Não consigo esquecer: a usina que produziu ferro durante tantos anos agora me aparece como geradora de histórias, talvez assombrada pelos fantasmas que ela mesma gerou, alimentou e matou, fantasmas que sempre retornam para contar sua história. As histórias da família de Anke. Mas também outras histórias que se cruzam aqui, nesse gigantesco monstro de ferro. Por exemplo: Stanislaw Gayzinski, nascido em 1904, em Buda-Wolska, na Polônia, teria alguma coisa a ver com a família Gaidzinski de Santa Catarina? Quantas vidas se escondem atrás desses nomes? Quantas histórias? Será possível contá-las? Puxar o fio de um nome e com ele ir montando o tecido de uma, de várias vidas?

*

Primavera de 2017

Talvez o que haja de melhor em Frankfurt sejam os parques, penso enquanto caminho pelo Ostpark em uma manhã de primavera vendo os coelhos, os esquilos, a algazarra dos pássaros nas árvores, os patos com seus filhotes, os corvos. Paro diante das árvores, leio seus nomes: Urweltmammutbaum ou Metasequoia Glyptostroboides, Taxodiaceae. Não é uma maravilha? Vou incorporando os nomes de árvores em alemão: Buche, faia, Esche, freixo, Eiche, cavalho. Em 2015, foi o Grüneburgpark, ao lado do campus oeste da Universidade Goethe, de Frankfurt, quando morava em Nordend. No inverno, em Sachsenhausen, no sul da cidade, o passeio ao longo do Meno, em seus jardins, as pontes, os museus. Agora, no leste, tenho uma outra visão do novo prédio do Banco Central Europeu que via no horizonte quando caminhava ao longo do rio do outro lado da cidade. Detenho-me diante da árvore do mamute primitivo: essa Metasequoia havia sido considerada extinta pela paleobotânica desde o Mesozoico, sendo descoberta na China nos anos 40: em 1941, quando o professor Shigeru Miki, da Universidade de Kioto, identificou um genus diferente ao examinar exemplares fósseis, enquanto no mesmo ano o guarda florestal T Kan achava na província de Hubei um exemplar enorme da espécie, redescoberta, em 1943, por outro guarda florestal, Zhan Wang, até que em 1946, os professores Wan Chun Cheng e Hu Xiansu relacionaram as descobertas e deram à espécie o epíteto de Glyptostroboides, por que parecida com um cipreste do pântano (Glyptostrobus). É aparentada à Sequoiadendron Giganteum, da Califórnia, que também encontro no Ostpark. Tomo nota dos nomes. Fico fascinado pelos nomes. Atrás deles, neles, há sempre histórias e música. Podia fazer um poema com os nomes das árvores ou com os nomes dos 250 mortos de Völklingen, uma enumeração, os nomes dispostos de tal maneira que componham um ritmo, uma série de sons que se atraem e se repelem, que provocam ondas de reverberações. Um poema que conte a história dos fantasmas, de um (muitos, 250?) crime.

*

Embora o policial da imigração não me deixe esquecer, não me sinto um estrangeiro em Frankfurt. Aos poucos, faço minha a cidade dos francos que cresceu nesse baixio do rio Meno.

*

Leio Byung-Chul Han, que conheci pelas mãos de Carlos Ríos. Coreano, estudou na Alemanha, doutorando-se em 1994, depois de deixar a Coréia e os estudos de Metalurgia aos 26 anos. Passou pela Basiléia, por Karlsruhe, e agora está na Universidade das Artes (UdK) em Berlim. Tem muitos livros publicados, pequenos e poderosos textos de interpretação do mundo contemporâneo. Shanzai (2011), sobre a ideia de cópia e de original na China e no Ocidente, o livro que Carlos deixou no Campeche e me fez ir adiante, Sociedade do cansaço (Müdigkeitsgesellschaft, 2010), o único traduzido em português,  Psychopolitik, Neoliberalismus und die neuen Machttechniken (Psicopolítica, Neoliberalismo e as novas técnicas de poder, 2014), Bitte, Augen schliessen (Por favor, feche os olhos, (2013), ambos traduzidos para o castelhano, Agonie des Eros (2012), entre outros, textos que se misturam, que insistem em um diagnóstico nada alegre sobre o mundo contemporâneo, que apontam para a passagem da sociedade disciplinar pensada por Foucault e Deleuze, sociedade da estatística, da ortopedia dos corpos, dos estudos sobre a população, para um outro tipo de poder, um poder smart, armado sobre uma cadeia de dados, Big Data, sob a qual o sujeito oprimido por um senhor se torna um projeto que sempre pode ser otimizado em prol de uma maior produtividade, “otimizado” não mais por um senhor externo que opera através de proibições, mas por si mesmo, um projeto que, submetido a uma velocidade cada vez maior, pode sempre melhorar, motivar-se, acrescentar algo, crescer, ser proativo, inovador, empreendedor. A liberdade, que, por exemplo, conduzia a reflexão de Vilém Flusser sobre os aparelhos (Filosofia da Caixa Preta), abre o livro sobre a psicopolítica do neoliberalismo: Crise da liberdade, pois se antes ela era o contrário da opressão, agora é ela mesma um constrangimento, uma opressão. O sujeito da eficiência, do rendimento, é o empresário de si mesmo, sempre impelido pela lógica da adição, do nivelamento, de alguma forma, algo muito próximo ao que intuía Georg Simmel na passagem do século XIX para o XX em sua Filosofia do dinheiro. Me chama a atenção a maneira como lê Hegel.

 

*

Sento, como de costume, em um banco do Ostpark pra ler. Na beira do lago, dois cisnes fazem sua higiene costumeira, futucando com o bico diferentes partes do corpo. Abro o livro e me distraio por alguns segundos com a leitura, mas a sombra branca dos cisnes me faz levantar a cabeça. Eles caminham desajeitadamente em minha direção. Param bem próximos ao meu joelho, me olham. Mostro a eles o livro que leio: um deles o toca com o bico. Percebo então que há um carro da polícia parado no caminho. A jovem policial na direção sorri pra mim: “Estão curiosos”, diz. É verão.

 

 

(Actualización julio – agosto 2017/ BazarAmericano)




9 de julio 5769 - Mar del Plata - Buenos Aires
ISSN 2314-1646