diciembre-enero 2023, AÑO 22, Nº 90

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Colaboran en este número

Osvaldo Aguirre
/  Carlos Ríos

Ana Porrúa
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Antonio Carlos Santos
/  Julio Schvartzman

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Julieta Novelli
/  María Eugenia López

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Curador de Galerías

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Diseño

Antonio Carlos Santos

Diário de viagem.
Um tradutor na Ilha de Santa Catarina
Primavera na Ilha / O dilúvio /
Salvador, União dos Palmares /
A caatinga / Os tupinambás

A planície vai, enfim, surgir
das águas para o homem

A R Lamego

 

Foi vovó dindinha que
contou as histórias da 
fazenda de café e dos
escravizados em Campos

H G.

 

As lacunas são, nesse 
particular, bem numerosas e,
lamentavelmente, irremediáveis

A.Metraux

 

 

 

Campos dos Goytacazes – “De adversários inconquistáveis, transformam-se afinal os Goitacás em protetores do próprio inimigo. De começo, defendem a terra. Depois continuam a protegê-la, defendendo o branco e sua civilização crescente, que acabará por apagar definitivamente no século XIX todo o vestígio da passagem trepidante de suas correrias impetuosas pela terra que foi sua.” (O homem e o brejo, Armando Ribeiro Lamego, IBGE, 1945)

 

Angicos, Sergipe – De Piranhas, Alagoas, na beira da represa do São Francisco, de barco até o Espaço Angicos, um restaurante, de onde parte a caminhada de meia hora até a Grota do Angico. O percurso seria fácil, sem grandes dificuldades, não fosse o calor que vai tomando conta do ambiente à medida que nos afastamos do rio. A terra seca, os enormes mandacarus, o mocó, os lagartos e os galhos secos retorcidos compõem a paisagem, num caminho de sobe-e-desce, cheio de pedras, até a grota, local em que foram mortos Lampião, Maria Bonita e mais nove cabras, além de um soldado da volante alagoana que surpreendeu o bando à noite. A água do São Francisco é uma bênção depois do calor da caminhada. 

 

União dos Palmares – Três anos depois da primeira visita, a casa de Jorge de Lima já está pintada, mas a reforma ainda não terminou. Ando pela cidade com minha companheira de viagem Aline: tenho novamente a impressão que o tempo aqui já se foi. Do trem, sobraram os dois prédios da estação, onde hoje são vendidos objetos de artesanato; em volta, abandono, muito comércio popular, muito barulho. 

 

Pra Três Vidas – Sim, Campos é um desses palcos, pois lá seu tataravô aparece como um homem rico, fazendeiro, comerciante dono de armazéns e barcos no rio Muriaé. Campos dos Goytacazes, seguindo a tradição dos invasores: os goitacás ocupavam a planície espremida entre a serra do Mar, os tabuleiros, a restinga –até os guerreiros goytacazes serem exterminados, o caminho do Rio até Campos só podia ser feito por mar. As montanhas se ergueram ainda no tempo em que não havia vida; já os tabuleiros e a restinga são mais novos. A restinga é o trabalho incessante do rio Paraíba do Sul e de sua bacia; pacientemente ao longo dos séculos vai depositando material em sua foz, em suas margens e a terra vai aparecendo do mar; a terra toda trabalha, os rios, as montanhas, os morros, a planície, as lagoas, para construir esse cenário. Seu tataravô era um invasor: o nome dele, João Ferreira do Amaral, nascido nos Portugais. 

 

Europa – Colapso da razão

 

Fotografias – “Apesar de tudo você terá uma ideia de nosso mundo”. A frase de Alexandre Bréthel (Um francês no vale do Carangola, Françoise Massa) em carta ao tio Gouzil me leva diretamente às fotos de que tenho me ocupado nestes últimos anos: as imagens de família. Elas me dão uma ideia desse mundo inacessível (e ao mesmo tempo são banais): os sentimentos, as angústias, as esperanças, as fotos certamente não mostram. Mas delas nasce algo.

 

 Os goitacás – “No distrito desta terra e capitania cai a terra dos Aitacazes, que é toda baixa e alagada, onde estes gentios vivem mais à maneira de homens marinhos que terrestres”, frei Vicente do Salvador, História do Brasil, escrita na Bahia a 20 de dezembro de 1627.

 

O dilúvio – Choveu outubro inteiro e novembro também. Mas ontem o pica-pau apareceu na palmeira. Aliás, desde que voltei do nordeste tive a visita de um tucano e de um casal de gaviões-carijó. Pas mal, né?

 

A mina 18 – Os pássaros deram o sinal. No vídeo, a gente vê que de repente as garças se agitam, voam em torno da margem da lagoa Mundaú. Logo depois, aparecem as borbulhas na margem da lagoa: “A Defesa Civil de Maceió informa que às 13h15 deste domingo (10/12) a mina 18 sofreu um rompimento, que pôde ser percebido num trecho da Lagoa Mundaú. No momento, técnicos da Defesa Civil estão monitorando o local em busca de mais informações. A Defesa Civil ressalta que a mina e todo o seu entorno estão desocupados e não há qualquer risco para as pessoas”. Desde 1979, a Braskem perfurou 35 minas para explorar sal-gema embaixo de cinco bairros de Maceió (Bebedouro, Mutange, Pinheiro, Bom Parto e Farol). Em 2018, depois de muita chuva, a terra tremeu. Sessenta mil pessoas tiveram que sair de suas casas. Alagoas, a terra do poeta Jorge de Lima, do presidente da Câmara, de Graciliano Ramos, de Color, do Quilombo dos Palmares.

 

As lacunas – Irremediáveis e numerosas: com elas se faz o relato.

 

Na lagoa Mundaú – Tainha, bagre, mandim, camurim, mororó, sururu, maçunim, siri e caranguejo / não dão conta dos / matadouros, das indústrias de açúcar, álcool e derivados / A lagoa está morrendo.

 

Pra não esquecer – Na Constituição de 1934, artigo 138, alínea B, está escrito: estimular a educação eugênica. 

 

Calunga 1935 – “Dobrando o beco da Croa Grande, parou sem querer na beirada da lagoa e ficou um bocado espiando a pesca do sururu. Raça de antepassados comedores de mariscos. Uns meio vestidos, outros nuzinhos em pêlo, atolados na água lamosa apanhavam da lama o sururu que há secula seculorum alimentou os indígenas que comeram o bispo Sardinha. Algumas cafuzas novas com os peitinhos pontudos, roçando a gosma da água, cortaram a emoção de Lula. Iam entrando cada vez mais na lama prolífica e matadora. Agora a lama deveria estar abarcando os sexos. Como apalpando. As cafuzinhas entravam voluptuosas mas purificadas no trabalho ínfimo. Garotinhos moldavam massapé calungas molengos.” Calunga, de Jorge de Lima.

 

Os fascistas – Depois de seis anos destruindo o Brasil, a extrema-direita ganha o poder na Argentina. Que tristeza!

 

(Actualización diciembre 2023 – febrero 2024/ BazarAmericano)




9 de julio 5769 - Mar del Plata - Buenos Aires
ISSN 2314-1646